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CULTURA


O homem que criava gigantes!

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Pelos menos 13 municípios de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Argentina têm algum dos seus gigantes de sucata, obras catalogadas desde 1994 pela arte-educadora Maria Helena Scaglia através de uma pesquisa que ainda está longe de terminar: a joinvilense já listou 32 monumentos (peças com mais de dois metros e meio), 38 esculturas, uma dezena de painéis e algumas poucas pinturas."Siqueira não tinha o hábito de registrar suas criações, às vezes sequer as assinava e se desfazia delas com facilidade, trocava por muito pouco", explica.

"Tem muita gente com obras suas que foram dadas como forma de pagamento".

Cada gigante de sucata criado por Siqueira é, na verdade, a potencialização do efeito fantástico das lendas, a metalização dos mitos, a observação da atividade humana através de uma lupa lírica e mágica: aos olhos do escultor, deuses, heróis e santos se confundem com o homem em meio ao fogo que forja a onipotência. Apesar de erigir seus monumentos a partir de refugos de metal, Siqueira procurava dar aos seus gigantes a forma mais humana possível, inflando músculos a partir de engrenagens e estruturando ossos a partir de eixos, deslocando peças que antes tinham relevância por sua função para um universo artístico onde se realizam através da forma.

Em Porto Alegre, é "Mercúrio" quem saúda os viajantes que desembarcam na rodoviária e conduzem o olhar em direção à cidade; em Serafina Corrêa, uma barca de trinta metros eterniza em metal a saga da colonização italiana; "O Fundidor" lembra aqueles que circulam por Joinville de que ao seu lado trabalha incessantemente a Fundição Tupy. Em Chapecó, cidade pontilhada por trabalhos de Siqueira, erguem-se do pedestal "O Desbravador", o "Índio Condá", os "Alienígenas" e o "Estudante". Passo Fundo, onde morou por muitos anos, tem por sua vez "O Ferroviário", o "Cavalariano" e o cantor Teixeirinha, obras que se misturam à paisagem urbana e que, mesmo sem serem percebidas graças ao tempo que as transforma em parte do cenário, não deixam de se confundir com os homens que circulam ao redor.

Na pintura, Siqueira foi deixando para trás a inocência das linhas arredondadas, perfeitas e harmoniosas à medida em que ia se aproximando se aproximando da abstração e se deixando envolver pelas influências da escola expressionista e do modernismo brasileiro. Esta trajetória estética pode ser acompanhada a partir de trabalhos como "Chica da Silva" e "Homenagem ao Chapecoense" - pintado em 1974, em que as figuras humanas são representadas em dimensões e detalhes próximos da realidade - até a beleza de "Dom Quixote" e "Néctar", a última uma acrílica sobre tela de 1994 que retrata a paixão de Cristo por meio de formas rudes, tristonhas e estilizadas. Entre um e outro extremo desta variação de estilos - o real e o passional - é possível encontrar trabalhos abstratos como duas telas sem título pintadas em meados da década de 80 de onde saltam cores e volumes em profusão, além de um "Auto-retrato" em que, no meio de um turbilhão de tons fortes, o artista se retrata como mais uma de suas criações feitas de fragmentos de metal.

À semelhança de seus trabalhos em meio aos homens, Siqueira foi um gigante em meio aos artistas de seu tempo: vistoso e heróico, mas desconsiderado; imponente e habilidoso, mas pouco valorizado. Prova de seu desprestígio junto à comunidade artística e mesmo junto às instâncias oficiais fomentadoras da arte e da cultura é que viveu em constante dificuldade financeira e sequer teve seus trabalhos catalogados por órgãos competentes. Há quatro anos de sua morte, no entanto, seu talento e sua beleza continuam fibrando com o timbre do metal e a potência do fogo.

Siqueira não se adaptava aos padrões normais da nossa sociedade e nunca teve a preocupação de explicar sua obra a ninguém; o material o inspirava, respeitava o "lixo do progresso". Podemos dizer que Paulo seguiu o Lavoisier de "nada se perde, tudo se transforma" ao se apropriar de peças de metal, engrenagens e molas jogadas no ferro velho. Siqueira quase dava vida a seres mágicos, deuses do além, índios, guerreiros; enfim, dava essência própria a cada obra. Nas horas de folga pintava, porém o espaço bidimensional era pouco para extrapolar sua imaginação. Autodidata, lia tudo o que lhe caía nas mãos, releu várias vezes o "Dom Quixote" de Cervantes e sua relação com o personagem era lendária: Quixote lutava contra os moinhos de vento, nosso artista lutou contra tudo e contra todos. Existe toda uma simbologia ligada a suas obras desde a deformação anatômica - Paulo era obeso - até as figuras que geralmente estavam apoiadas em apenas uma perna, como se estivessem em posição de salto e com um dos braços elevados para o universo - Paulo queria ir além, sempre mais alto.

Entre os monumentos que conheci, alguns me impressionaram mais; primeiro, pelo descaso dos órgãos competentes quanto à manutenção (caso de "Rita Maria em Festa" no terminal rodoviário em Florianópolis, "O Cavalariano" na Brigada Militar em Passo Fundo e "O Fundidor" em frente à Fundição Tupy, em Joinville); segundo, pelo imenso poder de expressão, movimento e pela excelente conservação (como de "Tributo às Lendas do Rio Grande do Sul", nas Lojas Grazziotin, em Porto Alegre, "La Nave Degli Imigrati" e "O Cristo" em Serafina Corrêa, "Ferreiro Giombelli" em Cascavel e o "Desbravador" em Chapecó).

MUSEU com Acervo de suas Obras:

Museu Paulo de Siqueira

Av. Getúlio Vargas (Monumento do Desbravador) Chapecó – SC.


Fonte: Jornal “A Notícia” (Joinvile/SC)– de 04 de agosto de 2000. e Site da Fundação de Cultura de Chapecó

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